25.6.06
POEMA

MEDITAR EM LISBOA
Queria desconhecer os arcos e túneis das cidades,
os aquedutos sem água sobre as casas, imitando a pedra-ançã,
com jardins encostados a recantos sem vento e sem ar do mar.
Quem me dera não saber o lugar da morada das coisas
mais pequenas, onde se pode tocar o pólen e juntar os dedos para
as nuvens acumuladas em cima. Largar a vida
e saborear o gesto de dividir mais sementes pelos campos. As flores
vermelhas de Junho trazem meses de atraso e os acantos
estremecem debaixo das árvores de Lisboa.
O rio atravessa a folhagem e há os barcos e os cargueiros metálicos.
A água transformou-se em espelho de líquidos suspensos
e, do lado de lá, revê-se a terra húmida.
Se as ruas queimassem as margens e ardessem de doçura na cidade,
como um corpo breve a dissolver-se à porta das casas e dos muros,
o que seria de nós, ó caminhante afastado ?
Não te esqueças dos arcos e dos prolongamentos das avenidas.
As festas durarão até tarde e todos esquecerão a árvore derrubada
onde se abre um silêncio na raiz. O que há-de ser
dos animais que não compreendem a falta de alimentos ? À tarde,
com a pele aquecida pela última bala do último caçador, a Terra
chamará a si a palavra - a estrela aberta.
Comments:
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Poema muito bonito, Firmino.
E esta canção fabulosa do Zeca é um excelente complemento que só o valoriza, obviamente.
A confraternização de sábado passado foi excelente.
Um abraço.
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E esta canção fabulosa do Zeca é um excelente complemento que só o valoriza, obviamente.
A confraternização de sábado passado foi excelente.
Um abraço.
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